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EDUCAÇÃO:
INDISCIPLINA E VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS
Por Aroldo Andrade e Carlos Vieira

Hoje, nas escolas, o que se pode constatar é a indisciplina total no interior das salas de aula. Alunos atendendo celular, conversas paralelas, pequenos grupos conversando e fazendo algazarras, sem contar que os trabalhos são quase todos copiados um do outro ou tirados diretamente da internet. Os alunos tentam sair da sala de aula, mas logo se deparam com os muros altos e protegidos com arame farpado. Além disso, é comum, nos pátios das escolas, você se deparar com alguns supervisores e diretores abordando alunos para colocá-los de volta, e à força, na sala de aula. Quando o aluno apresenta alguma resistência é chamado alguém da escola, geralmente o zelador ou alguém com um porte físico avantajado para intimidar o aluno, fazendo, dessa maneira, que ele volte ao interior da sala de aula. E se isto não for suficiente então é solicitada a presença de um policial.

Este é o ambiente que o professor se encontra para ministrar sua aula. De um lado, o professor irritado e pedindo para que a supervisão resolva o problema do aluno indisciplinado e, ao mesmo tempo, torcendo para que esse aluno não volte para a sala, uma vez que a sua volta só atrapalharia aqueles que estão interessados no conteúdo trabalhado. Por outro lado, a maioria das equipes pedagógicas leva o aluno de volta para a sala dizendo que o professor encontre uma maneira de resolver o problema lá mesmo, e se ele não resolver, então, é porque o professor é um incompetente, não tem domínio de sala, está ultrapassado e precisa mudar o jeito de dar aula, talvez, fazer da sala de aula um programa de auditório para prender a atenção do aluno. Ou seja, o professor encaminha o aluno indisciplinado, e que não quer estudar, para a coordenação, e a coordenação manda-o de volta para a sala. O pai, preocupado com seu filho, manda-o para a escola, esperando que a escola seja capaz de dar-lhe uma boa educação.

Mas, estudar não é como assistir um programa de entretenimento. Estudar exige sacrifício, dedicação, leitura, prestar atenção nas aulas, disciplina e concentração. Estas qualidades são poucos que a possuem. Platão, filósofo grego que viveu quatrocentos anos antes de Cristo, já havia abordado este assunto. Em sua obra “A República”, Platão coloca que existem aqueles que têm a alma de bronze, outros a alma de prata e alguns a alma de ouro. Aqueles que têm a alma de bronze e, portanto, não gostam de estudar, não devem ser forçados porque eles provavelmente terão outras habilidades, e aí, Platão dizia, estes devem atuar na agricultura, artesanato ou comércio que são atividades extremamente importantes para toda sociedade. Ou seja, para estas atividades ninguém precisa saber quem foi Mem de Sá, Nabuco Donosor, nem extrair uma raiz quadrada e nem resolver uma equação do segundo grau. Então, ficamos nos perguntando, porque forçar essa pessoa, que não tem nenhum interesse por esses assuntos ficar quatro horas diárias sentada num banco escolar e exigir dela disciplina e dedicação?

Para entendermos essa questão é interessante discutirmos melhor o significado da palavra “Liberdade Democrática”. Na escola fala-se em liberdade, mas não se pratica, pelo contrário, a escola é uma verdadeira prisão onde os alunos são obrigados a freqüentá-la, mesmo aqueles que não têm nenhum interesse pelo conhecimento e, por isso, a escola passa a ser mais um depósito de pessoas do que um local onde se busca o conhecimento. Na verdade, sabemos que onde não existe liberdade, automaticamente surgirá a violência. Então, a obrigatoriedade do ensino e o fato de manter o aluno no colégio, a qualquer custo, significa que não estamos respeitando as liberdades democráticas. E justamente por isso, torna-se necessário, no colégio, a construção de muros, grades, presença da policia e até instalação de câmeras de vigilância. Além disso, tanto professor como coordenadores e diretores, passa, também, a exercer o papel de policial e opressor, se quiserem manter seus empregos. Decorre daí que o professor ao invés de ser considerado e respeitado pelo fato de trazer o conhecimento para a discussão, passa a ser visto, pelo aluno, como opressor e consequentemente como inimigo do aluno.

As escolas possuem um projeto político pedagógico. No entanto, esse projeto deve ser elaborado dentro de certos limites que não se coloque contra o projeto maior elaborado pelo Estado. O Estado por sua vez, também elabora seu projeto de tal modo que sejam respeitadas as regras, estabelecidas para educação, em nível federal. Desse modo, percebe-se que o problema da indisciplina, que aparentemente parece ser uma questão entre professor e aluno, é resultado de algo que acontece, não no local da escola, mas numa instância muito maior. No entanto, ouvem-se, todos os dias, discursos e mais discursos inflamados no sentido de afirmar que os problemas da humanidade serão resolvidos colocando-se todas as crianças e a juventude, de um modo geral, na escola. Mas, cada dia que passa constata-se que a violência, o tráfego de drogas e a indisciplina, na escola, estão aumentando de forma assustadora. Ora culpa-se o aluno, ora o professor, ora a equipe pedagógica e assim por diante. E a situação vai se agravando dia a dia.

Assim, os discursos vão caindo, cada vez mais, no descrédito, porque eles não correspondem à realidade, e a única forma adotada pelo Estado, para combater tudo isso, é aumentar ainda mais a violência para combater a própria violência. Percebemos, então, que as liberdades democráticas vão diminuindo num ritmo bem acelerado e, assim, fica claro que não vivemos numa democracia, mas numa ditadura da minoria sobre a maioria. Essa minoria representa a classe dominante dona dos meios de produção que tem como fim a busca incessante pelo lucro e para isso ela, ao investir em tecnologia para ganhar a concorrência no mercado, acaba desempregando a população de tal modo que os bolsões de miséria vão aumentando e as famílias se desestruturando. São os filhos dessa desorganização, criada pela irracionalidade desse modo de produção, que chega às escolas para que o professor resolva o problema.

Os dirigentes dessa ordem continuam mentindo para as massas, dizendo que o problema se resolve pela educação, pela família ou pela religião. Os demagogos burgueses discursam: Temos que melhorar a educação! Temos que melhorar a saúde! Temos que cuidar para que a família esteja bem estruturada! No entanto nota-se que a educação e a saúde pioram cada vez mais, a família também se desestrutura e a única que consegue se manter e crescer é a religião, simplesmente porque ela atua no sentido de encobrir a verdadeira causa e transfere a felicidade do homem para um outro plano, ou seja, para uma vida feliz e eterna após a morte.

Dentro desse quadro, qual seria a solução? A solução é lutarmos pelas liberdades democráticas, ou seja, a derrubada dos milhares de “muros de Berlin”, grades e arames farpados que aprisionam nossa juventude, desativar as câmeras de vigilância e deixar a escola só para aqueles que realmente querem estudar. E, simultaneamente à derrubada dos muros e grades, é necessário dividir as horas de trabalho existentes entre todos, para que esses alunos que não tem nenhum interesse pelo estudo possam encontrar trabalho e dessa maneira realizarem, através do trabalho, suas potencialidades ao máximo contribuindo, assim, para sua realização e ao mesmo tempo para toda a sociedade. Além disso, é interessante deixar claro que a derrubada dos muros, a divisão das horas de trabalho e a reposição salarial de acordo com a inflação formam um todo unitário e coerente de tal modo que eles devem ir acontecendo simultaneamente. Somente assim podemos pensar em pessoas verdadeiramente livres, isto é, livre no sentido de compreendermos racionalmente que o problema não se resolve obrigando as pessoas a freqüentarem a escola. Mas, resolve-se, principalmente, dando Trabalho e Liberdade!

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