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A equipe de reportagem de O Operário entrevistou trabalhadores de um dos maiores e principais frigoríficos da região oeste do Paraná, a Coopavel. A indústria, que é responsável por promover e financiar anualmente o chamado “Show Rural Coopavel”, parece esconder alguns segredos nos quais somente pode ser revelado por aqueles que nela trabalham. Os operários entrevistados pediram para que seus nomes não fossem revelados para evitar represálias, perseguições e mesmo demissão. Acompanhe abaixo a entrevista completa.

Equipe de Reportagem: Pois bem! Acompanhamos anualmente em Cascavel o chamado “Show Rural”, organizado pelos sócios majoritários da Coopavel em parceria com os principais representantes do agronegócio. Sabemos também, que as indústrias e frigoríficos da Coopavel são os verdadeiros arrecadadores dos recursos que permitem a realização do evento. Porém, poderiam nos contar como é o dia-a-dia no interior da fábrica?

Operário 1: Bem, a Fábrica funciona 24 horas, sem parar! São três turnos. Mas como eu trabalho só em um, não sei ao certo como funcionam os demais. Só sei que das 8:30 às 17:30 é o horário da galera da expedição; e das 18:00 às 2:00 a galera do corte. O outro turno eu não sei qual é.

Equipe de Reportagem: Você poderia nos dar alguns detalhes sobre o trabalho no interior da fábrica?

Operário 1: Meu, o trabalho aqui, na maioria dos setores, é desumano! Mas, como eu te disse, são vários setores, e cada operário conhece apenas o seu. Só os que trabalham há mais tempo conhecem mais os outros setores. No setor das caixas e do carregamento, por exemplo, tem um esteira que leva as caixas até dois operários que arrumam as caixas em bloco dentro das carretas. Cada caixa pesa uns 20kg e o intervalo que se tem pra tirar do palete e jogar na esteira é de uns 5 segundos ou menos. Se o peão marca bobeira as caixas começam a cair uma por cima da outra, sem contar na esfrega que o peão leva do chefe do setor.

Equipe de Reportagem: E o salário? É proporcional ao trabalho? Consegue cobrir suas despesas?

Operário 1: Eu ganho uns R$750,00 por 8 horas de serviço, com as horas extras. No salário ainda é descontado o sindicato, vale transporte e outras coisas que não me lembro agora. Mas tem gente que trabalha há mais tempo e ganha um pouco mais. Também, têm aqueles que ficam felizes da vida ganhando uma merreca. Só que a galera acaba se matando fazendo hora extra pra ganhar um pouco mais. Você diz se o salário é proporcional ao trabalho? Nem f...! Eu que não tenho família e moro sozinho acho pouco, imagina quem tem família? O peão tá f...!

Equipe de Reportagem: O que mais vocês observam lá dentro que os indignam?

Operário 1: Tem uns velhinhos que se f... um monte. Eles são obrigados a fazer o mesmo tipo de trabalho que os operários mais novos e vivem levando esfrega dos chefes de setor.

Operário 2: O que mais indigna são alguns chefes de setor que vivem dando bronca e xingando a peãozada e depois vem todo manso pedir pra gente fazer hora extra. Esses dias um amigo meu, que trabalha comigo no meu setor, fez altas horas extras, porque o chefe de setor pediu. Depois quando ele foi cobrar as horas extras, o cara disse pra ele que não ia pagar e que ele recebe pelo horário de trabalho que está no contrato. Deu que meu amigo ficou sem as horas extras.

Operário 1: Outra coisa que deixa a gente indignado e até com medo é que a enfermaria vive cheia. A galera passa mal de tanto trabalhar. A galera do corte, então, se ferra toda hora. Eles se queixam toda hora de dores no braço e muitos vão parar na enfermaria com cortes, alguns quase perdem os dedos e as mãos.

Operário 2: Esses dias vi na enfermaria uma garota que tava grávida; ela tava passando mal e os caras não queriam liberar ela do trabalho; ela tava com a barriga enorme, já tinha que ter tirado licença.

Operário 2: Eu mesmo tive que trabalhar esses dias com o pé quebrado. Eu tava morrendo de dor no pé, fui pra enfermaria e eles não quiseram me dispensar e me mandaram de novo pro meu setor. Fiquei a semana inteira me queixando de dor e indo pra enfermaria. Mas eles não me liberavam. Acabei tendo que ir no médico por conta própria. O médico disse que eu estava com o pé quebrado e me deu uma licença. Mas a galera da enfermaria não aceitou! Só depois de umas 2 semanas, quando o meu pé já tinha melhorado sozinho, com medo eles me deram licença de alguns dias. Mas a verdade é que eu tive de trabalhar com o pé quebrado durante 2 semanas.

Equipe de Reportagem: De que mais os operários reclamam?

Operário 1: As mulheres que trabalham na lavanderia reclamam toda hora do barulho das máquinas. Elas dizem que estão ficando surdas, e elas reclamam toda hora para os chefes de setor, mas eles nem dão bola. Tem, também, os caras que trabalham na Câmara fria; eles também reclamam toda hora, porque eles passam a maior parte do tempo lá dentro; eles dizem pra gente que as vezes perdem os sentidos das mãos e dos pés.

Equipe de Reportagem: A fábrica produz apenas para abastecer a Região ou para exportação também?

Operário 1: Não! Que eu saiba parece que a maioria do que é produzido vai pro exterior...

Operário 2: A maioria vai pro exterior! Os lugares que mais importam são o Japão, África e Europa... eu sei que ela exporta bastante pra países do Oriente Médio também. Esses dias teve uns clientes estrangeiros que visitaram a fábrica, daí fazem a gente vestir os jalecos limpinhos e todos os equipamentos de proteção, máscaras e tal pra causar uma boa impressão...

Equipe de Reportagem: Ouvimos dizer, de outros operários que já trabalharam na Coopavel, que volta e meia ocorrem mortes dentro da fábrica. É verdade isso?

Operário 1: Sim, é verdade! Já ouvi isso também, mas nunca vi ninguém morrer na minha frente, ainda bem. Mas isso é de se esperar, porque o trabalho em muitos setores da fábrica é de risco, principalmente na câmara fria, lá sim o trabalho é de risco o tempo todo.

Operário 2: É verdade, já morreram vários, mas a chefia esconde e a TV local também não fala nada. Mas esses dias eu vi o chefe de um dos setores e a galera assistindo o vídeo de um operário que teve a cabeça decepada pela máquina ou por uma chapa de aço, não sei direito. Dizem que a chapa pesava 1 tonelada e o pessoal foi tirar ela do caminhão, a chapa escorregou e esmagou a cabeça de um cara na parede, o peão morreu na hora.

Equipe de Reportagem: É verdade. Pelo jeito a coisa é feia. Mas e o sindicato de vocês?

Operário 1: O sindicato? O sindicato é um bando de baba ovo dos donos fábrica. Eles não se diferenciam em nada dos chefes de setor. Na verdade, acho que eles são os chefes dos chefes de setor.

Equipe de Reportagem: Ouvimos dizer que a Coopavel está investindo em um novo prédio e novas máquinas que deverão aumentar a produção. O que você sabem a respeito?

Operário 1: É verdade. Vai ser inaugurado um novo prédio, com máquinas novas e novas salas de produção. Pelo o que eu andei escutando, muitos operários vão ser demitidos. Alguma coisa precisa ser feita contra tudo isso!

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