CRISE MUNDIAL: QUEM É O CULPADO PELA CRISE?
Por Aroldo Andrade e Carlos Vieira
A Bolsa de Valores de São Paulo foi a primeira a sentir os impactos da crise. Na segunda-feira, 29, auge do nervosismo, o índice da Bovespa (Ibovespa) chegou a cair 10,2%, uma das maiores quedas de sua história. Em Wall Street (New York), pela primeira vez em pelo menos cinco anos, os índices futuros de ações tiveram suas operações interrompidas após atingirem o limite diário de queda. Já, o Dow Jones futuro foi congelado em queda de 6,3%. Mas, afinal de contas, quem é o culpado pela crise? Qual será mesmo o motivo que deu origem a essa crise? Para respondermos a essas questões vamos iniciar nossa discussão por uma categoria muito conhecida por todos, a mercadoria.
Segundo os economistas clássicos Adam Smith, Ricardo e Karl Marx, - também o filosofo grego Aristóteles já abordara sobre tal assunto 300 anos a.C. - , a mercadoria possui dois valores, valor de uso e valor de troca. O valor de uso está ligado à utilidade da mercadoria, como por exemplo, o valor de uso de um casaco está relacionado ao fato de sua proteção contra o frio, e o valor de uso de um automóvel ao fato de que ele serve para nos transportar de um lado para outro com certa rapidez e conforto. Porém, o valor de troca já apresenta certo grau de dificuldade para compreensão. Assim, se tivermos duas mercadorias de qualidades diferentes para serem trocadas uma pela outra e desejamos saber o valor de cada uma, será necessário descobrirmos aquilo que existe de comum nas duas mercadorias, e, desse modo, o fato desta coisa comum possuir a mesma qualidade podemos deduzir que é exatamente neste ponto onde encontraremos o valor da mercadoria. E esse algo de comum só pode ser a quantidade de trabalho existente nas mercadorias, embora não seja possível apreendê-lo com os cinco sentidos, mas é possível percebê-lo com os olhos da razão, conforme fizeram pensadores como Adam Smith, Ricardo e também Marx.
Sendo assim, podemos inferir que a soma de todos os preços sempre será igual à soma de todos os valores, e isto significa dizer que as mercadorias, no seu conjunto, podem ser trocadas das mais variadas maneiras que o valor total das mercadorias não se modificará em nada, pela razão de que a quantidade de trabalho existente nas mercadorias já está dada antes mesmo de ocorrer qualquer troca. Portanto, para que alguém possa se enriquecer terá que, necessariamente, se apropriar de muitas mercadorias, e para isso, é claro, terá que passar alguém para trás. Isto é, terá que se apropriar do trabalho alheio de muitas pessoas, uma vez que nas mercadorias está materializado trabalho humano de uma infinidade de pessoas. Na verdade, o valor de uma mercadoria nada mais é que a manifestação do trabalho existente nessa mercadoria, e para que alguém tenha sob seu controle uma quantidade de valor muito grande, significa dizer que tem sob seu controle muito trabalho alheio. Então, a pergunta que imediatamente surge é: como fazer para conseguir tanto valor ou trabalho alheio em nossas mãos?
O segredo de tudo está numa mercadoria chamada força de trabalho que tem um determinado valor mas que é capaz de produzir um valor maior que seu próprio valor. Ou seja, se precisamos para sobreviver uma soma de produtos que tem um valor equivalente a cinco horas de trabalho, e o dono dos meios de produção nos contrata como seu empregado, ele pode nos contratar para trabalhar cinco horas ou dez horas, uma vez que os produtos consumidos por nós, apesar de ter um valor equivalente a cinco horas, permite que trabalhemos durante dez horas ou mais. No entanto, isso não significa que ele vai nos pagar um salário equivalente a um valor que corresponda a dez horas de trabalho, mas pelo contrário, faz que trabalhemos dez horas pagando apenas o equivalente a cinco horas e se apropriando, assim, do restante. Dito de outro modo, rouba do trabalhador cinco horas de trabalho e é, exatamente, desse excedente de trabalho alheio não-pago que o dono dos meios de produção vai se enriquecendo cada vez mais.
Como vemos, esta lógica de se apropriar de trabalho alheio-não pago é quem move a sociedade capitalista. Então, uma das maneiras para se apropriarem de mais trabalho alheio é o aumento da jornada de trabalho e redução dos salários. No entanto, esta forma de se enriquecerem seria muito tranqüila se não existisse a concorrência entre os capitalistas. Mas ela existe, e para que o capitalista escoe sua produção, para realizar seu lucro, precisa vender sua mercadoria por um preço abaixo de seu concorrente.
E como ele poderá fazer isto? Ora, só há uma saída, produzindo as mercadorias com um valor inferior às do seu concorrente. Mas, para baixar o valor das mercadorias precisa-se investir em tecnologia, pois, dessa maneira será possível produzir a mesma quantidade de mercadoria com uma quantidade de trabalho muito menor do que seu oponente, que ainda não investiu em equipamentos modernos, e, assim, conseguirá vender suas mercadorias por um preço bem menor que de seu concorrente. Diante disso, seu competidor também terá que fazer o mesmo, ou seja, investir em novas tecnologias. Temos, então, uma corrida entre os capitalistas do mundo inteiro para investir em tecnologia cada vez mais, e aquele que não fizer, certamente, terá que sair do mercado. Assim sendo, essa corrida nos trará algumas conseqüências que serão mostradas a seguir.
Primeira conseqüência, haverá uma queda na taxa de lucro, uma vez que nosso capitalista terá que vender muito mais mercadorias do que antes pelo mesmo valor, ou em outras palavras, se antes de investir em tecnologia nosso capitalista conseguia se apropriar de certa quantidade de trabalho, agora terá que vender muito mais mercadorias para se apropriar da mesma quantidade de trabalho.
Segunda conseqüência, o mercado funciona como um estômago, isto é, tem um limite, e a partir desse limite as mercadorias começarão a ficar estocadas, e isto ocorre pelo fato de que com a tecnologia bem desenvolvida, a produção passa a ser muito maior do que o necessário para o consumo. Assim, o comércio começa cancelar os pedidos e as fábricas, por sua vez, terão que desativar a produção ou até fechar as portas. A este tipo de acontecimento os economistas chamam de desproporção entre o departamento I e o departamento II. Entretanto, no departamento I está a maioria dos empregos, de tal modo que o fechamento deste setor acaba desempregando muitos trabalhadores e estes, sem emprego, não poderão gastar no comércio. Assim, se por um lado existe uma superprodução de mercadorias, por outro, haverá um subconsumo das massas pelo fato de que as pessoas desempregadas não poderão consumir os produtos. Ou seja, haverá uma desproporção entre oferta e procura.
Terceira conseqüência, nesse processo, muitas fábricas estarão fechando e outras diminuindo o ritmo da produção, de tal maneira que os acionistas correrão todos para vender suas ações, e exatamente por isso o preço das ações caem, e, assim, muitos acionistas ficam pobres de um dia para outro, levando alguns deles até ao suicídio.
Quarta conseqüência, de qualquer modo, e mesmo com toda quebradeira, há muito dinheiro no mercado e este dinheiro tende a se deslocar para a esfera bancária ou para compra de dólares. No segundo caso, o dólar sofrerá uma alta devido à procura ser muito grande, mas este fato acaba complicando ainda mais a situação porque este mesmo dólar passa a ter um preço que não corresponde ao valor que ele representa. No primeiro caso, os bancos não conseguem pagar os juros pelo fato de não terem para quem emprestar o dinheiro, visto que o setor produtivo está sendo desativado e nenhum capitalista se interessará em fazer nenhum tipo de empréstimo. Mas, os bancos precisam pagar os juros de popança e outros investimentos.
Neste momento entra o Estado para socorrer tanto os banqueiros como também toda a classe dos capitalistas, entregando dinheiro dos impostos aos banqueiros por um lado, e por outro anistiando impostos das empresas que estão à beira da falência. Mas, afinal de contas quem sai perdendo em tudo isso? Sem dúvida nenhuma, quem mais perde são os trabalhadores pelo fato de que os bancos estão quebrando e as empresas fechando. O Estado, desta forma,tendo que socorrer os dois com o dinheiro dos impostos, ficará sem condições para pagar o funcionalismo público. Por isso, os gerentes do capital rapidamente começarão a demitir funcionários, achatar o salário, aumentar a jornada e intensificar o trabalho daqueles que permaneceram no emprego.
Assim, os trabalhadores dos bancos serão afetados em razão das instituições bancárias estarem quebrando. Os trabalhadores da indústria serão afetados porque estas estarão fechando ou diminuíndo seu ritmo. Os trabalhadores da educação, saúde e segurança também são afetados porque o Estado, além de usar o dinheiro dos impostos para socorrer bancos e empresas quebradas, passam a receber menos tributo em vista de que a produção está diminuindo, e, por isso, a arrecadação, para pagar funcionários, também está sendo reduzida. As vendas do comércio caem e os trabalhadores desse setor também sofrerão as mesmas conseqüências.
E como os trabalhadores deverão reagir diante de tudo isso? Ora, nós, trabalhadores, não temos nenhuma culpa pela irresponsabilidade daqueles que gerenciam e defendem essa maneira de organizar a sociedade. Portanto, devemos exigir que os salários sejam corrigidos de acordo com a inflação, que as horas de trabalho existentes sejam divididas entre todos, sem diminuição dos salários, para não ocorrer desemprego, e que se criem frentes públicas de trabalho para aqueles que estão desempregados. Caso os gerentes dessa ordem venham com a velha argumentação de que isso não será possível dentro deste modo de produção capitalista, então, entre nós e o capitalismo, que morra o capitalismo.
Segundo os economistas clássicos Adam Smith, Ricardo e Karl Marx, - também o filosofo grego Aristóteles já abordara sobre tal assunto 300 anos a.C. - , a mercadoria possui dois valores, valor de uso e valor de troca. O valor de uso está ligado à utilidade da mercadoria, como por exemplo, o valor de uso de um casaco está relacionado ao fato de sua proteção contra o frio, e o valor de uso de um automóvel ao fato de que ele serve para nos transportar de um lado para outro com certa rapidez e conforto. Porém, o valor de troca já apresenta certo grau de dificuldade para compreensão. Assim, se tivermos duas mercadorias de qualidades diferentes para serem trocadas uma pela outra e desejamos saber o valor de cada uma, será necessário descobrirmos aquilo que existe de comum nas duas mercadorias, e, desse modo, o fato desta coisa comum possuir a mesma qualidade podemos deduzir que é exatamente neste ponto onde encontraremos o valor da mercadoria. E esse algo de comum só pode ser a quantidade de trabalho existente nas mercadorias, embora não seja possível apreendê-lo com os cinco sentidos, mas é possível percebê-lo com os olhos da razão, conforme fizeram pensadores como Adam Smith, Ricardo e também Marx.
O segredo de tudo está numa mercadoria chamada força de trabalho que tem um determinado valor mas que é capaz de produzir um valor maior que seu próprio valor. Ou seja, se precisamos para sobreviver uma soma de produtos que tem um valor equivalente a cinco horas de trabalho, e o dono dos meios de produção nos contrata como seu empregado, ele pode nos contratar para trabalhar cinco horas ou dez horas, uma vez que os produtos consumidos por nós, apesar de ter um valor equivalente a cinco horas, permite que trabalhemos durante dez horas ou mais. No entanto, isso não significa que ele vai nos pagar um salário equivalente a um valor que corresponda a dez horas de trabalho, mas pelo contrário, faz que trabalhemos dez horas pagando apenas o equivalente a cinco horas e se apropriando, assim, do restante. Dito de outro modo, rouba do trabalhador cinco horas de trabalho e é, exatamente, desse excedente de trabalho alheio não-pago que o dono dos meios de produção vai se enriquecendo cada vez mais.
Como vemos, esta lógica de se apropriar de trabalho alheio-não pago é quem move a sociedade capitalista. Então, uma das maneiras para se apropriarem de mais trabalho alheio é o aumento da jornada de trabalho e redução dos salários. No entanto, esta forma de se enriquecerem seria muito tranqüila se não existisse a concorrência entre os capitalistas. Mas ela existe, e para que o capitalista escoe sua produção, para realizar seu lucro, precisa vender sua mercadoria por um preço abaixo de seu concorrente.
E como ele poderá fazer isto? Ora, só há uma saída, produzindo as mercadorias com um valor inferior às do seu concorrente. Mas, para baixar o valor das mercadorias precisa-se investir em tecnologia, pois, dessa maneira será possível produzir a mesma quantidade de mercadoria com uma quantidade de trabalho muito menor do que seu oponente, que ainda não investiu em equipamentos modernos, e, assim, conseguirá vender suas mercadorias por um preço bem menor que de seu concorrente. Diante disso, seu competidor também terá que fazer o mesmo, ou seja, investir em novas tecnologias. Temos, então, uma corrida entre os capitalistas do mundo inteiro para investir em tecnologia cada vez mais, e aquele que não fizer, certamente, terá que sair do mercado. Assim sendo, essa corrida nos trará algumas conseqüências que serão mostradas a seguir.
Primeira conseqüência, haverá uma queda na taxa de lucro, uma vez que nosso capitalista terá que vender muito mais mercadorias do que antes pelo mesmo valor, ou em outras palavras, se antes de investir em tecnologia nosso capitalista conseguia se apropriar de certa quantidade de trabalho, agora terá que vender muito mais mercadorias para se apropriar da mesma quantidade de trabalho.
Segunda conseqüência, o mercado funciona como um estômago, isto é, tem um limite, e a partir desse limite as mercadorias começarão a ficar estocadas, e isto ocorre pelo fato de que com a tecnologia bem desenvolvida, a produção passa a ser muito maior do que o necessário para o consumo. Assim, o comércio começa cancelar os pedidos e as fábricas, por sua vez, terão que desativar a produção ou até fechar as portas. A este tipo de acontecimento os economistas chamam de desproporção entre o departamento I e o departamento II. Entretanto, no departamento I está a maioria dos empregos, de tal modo que o fechamento deste setor acaba desempregando muitos trabalhadores e estes, sem emprego, não poderão gastar no comércio. Assim, se por um lado existe uma superprodução de mercadorias, por outro, haverá um subconsumo das massas pelo fato de que as pessoas desempregadas não poderão consumir os produtos. Ou seja, haverá uma desproporção entre oferta e procura.
Terceira conseqüência, nesse processo, muitas fábricas estarão fechando e outras diminuindo o ritmo da produção, de tal maneira que os acionistas correrão todos para vender suas ações, e exatamente por isso o preço das ações caem, e, assim, muitos acionistas ficam pobres de um dia para outro, levando alguns deles até ao suicídio.
Quarta conseqüência, de qualquer modo, e mesmo com toda quebradeira, há muito dinheiro no mercado e este dinheiro tende a se deslocar para a esfera bancária ou para compra de dólares. No segundo caso, o dólar sofrerá uma alta devido à procura ser muito grande, mas este fato acaba complicando ainda mais a situação porque este mesmo dólar passa a ter um preço que não corresponde ao valor que ele representa. No primeiro caso, os bancos não conseguem pagar os juros pelo fato de não terem para quem emprestar o dinheiro, visto que o setor produtivo está sendo desativado e nenhum capitalista se interessará em fazer nenhum tipo de empréstimo. Mas, os bancos precisam pagar os juros de popança e outros investimentos.
Neste momento entra o Estado para socorrer tanto os banqueiros como também toda a classe dos capitalistas, entregando dinheiro dos impostos aos banqueiros por um lado, e por outro anistiando impostos das empresas que estão à beira da falência. Mas, afinal de contas quem sai perdendo em tudo isso? Sem dúvida nenhuma, quem mais perde são os trabalhadores pelo fato de que os bancos estão quebrando e as empresas fechando. O Estado, desta forma,tendo que socorrer os dois com o dinheiro dos impostos, ficará sem condições para pagar o funcionalismo público. Por isso, os gerentes do capital rapidamente começarão a demitir funcionários, achatar o salário, aumentar a jornada e intensificar o trabalho daqueles que permaneceram no emprego.
Assim, os trabalhadores dos bancos serão afetados em razão das instituições bancárias estarem quebrando. Os trabalhadores da indústria serão afetados porque estas estarão fechando ou diminuíndo seu ritmo. Os trabalhadores da educação, saúde e segurança também são afetados porque o Estado, além de usar o dinheiro dos impostos para socorrer bancos e empresas quebradas, passam a receber menos tributo em vista de que a produção está diminuindo, e, por isso, a arrecadação, para pagar funcionários, também está sendo reduzida. As vendas do comércio caem e os trabalhadores desse setor também sofrerão as mesmas conseqüências.
E como os trabalhadores deverão reagir diante de tudo isso? Ora, nós, trabalhadores, não temos nenhuma culpa pela irresponsabilidade daqueles que gerenciam e defendem essa maneira de organizar a sociedade. Portanto, devemos exigir que os salários sejam corrigidos de acordo com a inflação, que as horas de trabalho existentes sejam divididas entre todos, sem diminuição dos salários, para não ocorrer desemprego, e que se criem frentes públicas de trabalho para aqueles que estão desempregados. Caso os gerentes dessa ordem venham com a velha argumentação de que isso não será possível dentro deste modo de produção capitalista, então, entre nós e o capitalismo, que morra o capitalismo.
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