BOLÍVIA: EVO MORALES E “AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA”
Por Aroldo Andrade e Carlos Vieira
A Bolívia sempre foi marcada pela exploração de seu povo, de forma tão intensa, que seria impossível não ocorrer conflitos neste país. Basta lembrar o tempo que os espanhóis chegaram nessa região e descobriram o potencial que ali existia devido às grandes jazidas de prata e outros minerais. Eduardo Galeano conta, através do seu livro As Veias Abertas da América Latina, como aconteceu a extração desses minerais, de tal modo que ao ler essa obra ficamos nos perguntando como pode um povo suportar exploração de tal magnitude. Ou seja, os minérios foram retirados através do povo indígena que habitava aquela região de forma tão coercitiva e tão pouco remunerada que os pobres índios acabavam morrendo ainda jovem por desnutrição, simplesmente porque o salário que eles recebiam para trabalhar nas minas não era suficiente nem para repor sua própria força de trabalho. Assim, para trabalhar precisavam consumir folhas de coca para poderem suportar a intensa carga de trabalho imposta pelos espanhóis, e, dessa maneira, ficavam debilitados, doentes e acabavam morrendo. A igreja na época, aliada dos exploradores espanhóis, considerava que o índio não tinha alma e por isso mesmo não se incomodava nem um pouco com o tratamento dado àquele povo, uma vez que não tendo alma poderiam ser tratados como se tratava outro animal qualquer. Portanto, a exploração empregada além dos níveis suportáveis, a violência física direta, se estendiam não só para os índios, mas também para os animais que eram usados em qualquer processo de produção desse tipo.
Vejamos, então, um trecho do livro As Veias Aberta da América Latina, Galeano coloca que “a Espanha recebeu tanto metal de Potosí que dava para fazer uma ponte de prata desde o cume da montanha até a porta do palácio real do outro lado do oceano”. (Galeano, 1998, p. 34). Potosí é o nome da montanha e da cidade situada na Bolívia de onde foi retira a prata que o autor se refere. Além dessa montanha, existiram muitas outras onde foram retirados mais minerais e enviados, não só para a Espanha, mas para o mundo todo, de tal modo que o trabalho não-pago ao povo boliviano iria se transformar em capital e, desse modo, ampliar os capitais já existentes na Europa e Estados Unidos. Portanto, sem a exploração dos povos da Bolívia e de toda a América do sul o capital mundial jamais teria atingido os níveis de hoje.
Esse mesmo trabalho não-pago aos bolivianos, e que se transformou em capital, retorna, agora, à Bolívia para sugar mais trabalho alheio desse mesmo povo na extração da borracha. As empresas, principalmente as norte americanas, contratavam trabalhadores bolivianos que se embrenhavam na mata com a expectativa de que através desse trabalho pudessem conseguir uma vida melhor. No entanto, muitos deles acabavam não voltando para casa pelo fato de que eram atacados por animais da floresta, outros contraiam febre amarela e acabavam morrendo. Mas, grande parte deles conseguia com sucesso a retirada da borracha e entregavam todo produto às empresas que os contratavam. Porém, na hora de receber eram mortos pelos pistoleiros contratados por essas mesmas empresas e, assim, novamente o trabalho não-pago aos bolivianos vai servir para ampliar ainda mais os capitais que continuam se espalhando pelo mundo todo através dessas empresas que se instalaram na Bolívia e em toda a América.
Apesar de tudo, a natureza continua generosa com a Bolívia uma vez tratar-se de uma região que ainda continua tendo muitas reservas de minério e de gás. Por outro lado, as relações de produção não são nada generosas com o povo boliviano, simplesmente pelo fato de que num primeiro momento o capital Europeu, em grande parte, cresceu porque se alimentou do sangue boliviano, como foi o caso de Potosí e também a retirada de borracha, e, agora, esse capital representado por empresas Americanas, brasileiras, bolivianas e outras, continuam explorando os trabalhadores bolivianos numa escala tão grande que sessenta por cento da população boliviana vive, hoje, abaixo da linha da pobreza.
Diante disso, é lógico que os trabalhadores estejam indignados com os baixos salários, intensidade e altas jornadas de trabalho, desemprego e consequentemente com a pobreza que se espalha por todo país. Entretanto, nos parece que essas revoltas que estão acontecendo na Bolívia não resultarão no fim da exploração dos trabalhadores, tendo em vista o fato de que a luta não está sendo encaminhada na direção que interessa à classe dos trabalhadores. Ou seja, o discurso do presidente Evo Morales nunca tem indicado para que os meios de produção sejam dirigidos pelos comitês e conselhos de trabalhadores colocando, dessa maneira, o poder nas mãos daqueles que verdadeiramente produzem a riqueza. Mas, pelo contrário, defende um projeto que consiste em manter as empresas privadas e fazer, através do Estado, uma pressão sobre as empresas para que uma parte maior do lucro seja dividida entre os trabalhadores. É o que Evo Morales e Hugo Chaves intitulam de socialismo do século XXI.
Ora, isso é um absurdo, porque a lógica do lucro jamais permitirá que o Estado continue por muito tempo interrompendo sua liberdade. Isto é, a lógica do lucro incrustada no pensamento burguês e representada através desse pensamento, já condicionado por essa mesma dinâmica, levará até as últimas conseqüências todas as ações necessárias para derrubar qualquer governo que atrapalhe a liberdade de comércio e a liberdade de se apropriar ao máximo de trabalho alheio não-pago dos trabalhadores. Portanto, só há duas vias: ou o governo rende-se à lógica do lucro e deixa o Estado ser conduzido pela classe dos capitalistas, ou leva até as últimas conseqüências o rompimento definitivo com a burguesia eliminando, assim, com o direito de propriedade e colocando os meios de produção sob o controle dos comitês e conselhos organizados pela classe trabalhadora. Mas, infelizmente, as políticas de Evo Morales, Hugo Chaves, Lula e outros paises da América Latina não foram e não são organizadas dessa maneira. Por isso, terão que continuar gerenciando o Estado de acordo com o interesse dos monopólios que além de continuarem explorando a classe trabalhadora obrigam também que o governo de seus paises não permita aos outros monopólios a mesma liberdade que usufrui os monopólios atrelados a Evo Morales.
Portanto, podemos tirar daí a seguinte conclusão: Ambos os “Socialistas do Século XXI” são oportunistas, traidores e estão completamente a serviço de alguns monopólios que estão em disputa com outros monopólios. Ou seja, o conflito todo se origina pelo fato de que todos esses grupos querem abocanhar o máximo que podem de trabalho alheio não-pago dos trabalhadores, e estes não suportando mais tanta opressão entram em luta contra seus opressores. Em outras palavras, na origem de tudo está a velha luta de classe que alguns não querem ver, ou simplesmente querem escondê-la.
Bibliografia
GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Tradução Galeano de Freitas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
MARX, Karl. O Capital. Tradução Regis Barbosa. São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Os Economistas).
Vejamos, então, um trecho do livro As Veias Aberta da América Latina, Galeano coloca que “a Espanha recebeu tanto metal de Potosí que dava para fazer uma ponte de prata desde o cume da montanha até a porta do palácio real do outro lado do oceano”. (Galeano, 1998, p. 34). Potosí é o nome da montanha e da cidade situada na Bolívia de onde foi retira a prata que o autor se refere. Além dessa montanha, existiram muitas outras onde foram retirados mais minerais e enviados, não só para a Espanha, mas para o mundo todo, de tal modo que o trabalho não-pago ao povo boliviano iria se transformar em capital e, desse modo, ampliar os capitais já existentes na Europa e Estados Unidos. Portanto, sem a exploração dos povos da Bolívia e de toda a América do sul o capital mundial jamais teria atingido os níveis de hoje.
Esse mesmo trabalho não-pago aos bolivianos, e que se transformou em capital, retorna, agora, à Bolívia para sugar mais trabalho alheio desse mesmo povo na extração da borracha. As empresas, principalmente as norte americanas, contratavam trabalhadores bolivianos que se embrenhavam na mata com a expectativa de que através desse trabalho pudessem conseguir uma vida melhor. No entanto, muitos deles acabavam não voltando para casa pelo fato de que eram atacados por animais da floresta, outros contraiam febre amarela e acabavam morrendo. Mas, grande parte deles conseguia com sucesso a retirada da borracha e entregavam todo produto às empresas que os contratavam. Porém, na hora de receber eram mortos pelos pistoleiros contratados por essas mesmas empresas e, assim, novamente o trabalho não-pago aos bolivianos vai servir para ampliar ainda mais os capitais que continuam se espalhando pelo mundo todo através dessas empresas que se instalaram na Bolívia e em toda a América.
Apesar de tudo, a natureza continua generosa com a Bolívia uma vez tratar-se de uma região que ainda continua tendo muitas reservas de minério e de gás. Por outro lado, as relações de produção não são nada generosas com o povo boliviano, simplesmente pelo fato de que num primeiro momento o capital Europeu, em grande parte, cresceu porque se alimentou do sangue boliviano, como foi o caso de Potosí e também a retirada de borracha, e, agora, esse capital representado por empresas Americanas, brasileiras, bolivianas e outras, continuam explorando os trabalhadores bolivianos numa escala tão grande que sessenta por cento da população boliviana vive, hoje, abaixo da linha da pobreza.
Diante disso, é lógico que os trabalhadores estejam indignados com os baixos salários, intensidade e altas jornadas de trabalho, desemprego e consequentemente com a pobreza que se espalha por todo país. Entretanto, nos parece que essas revoltas que estão acontecendo na Bolívia não resultarão no fim da exploração dos trabalhadores, tendo em vista o fato de que a luta não está sendo encaminhada na direção que interessa à classe dos trabalhadores. Ou seja, o discurso do presidente Evo Morales nunca tem indicado para que os meios de produção sejam dirigidos pelos comitês e conselhos de trabalhadores colocando, dessa maneira, o poder nas mãos daqueles que verdadeiramente produzem a riqueza. Mas, pelo contrário, defende um projeto que consiste em manter as empresas privadas e fazer, através do Estado, uma pressão sobre as empresas para que uma parte maior do lucro seja dividida entre os trabalhadores. É o que Evo Morales e Hugo Chaves intitulam de socialismo do século XXI.
Ora, isso é um absurdo, porque a lógica do lucro jamais permitirá que o Estado continue por muito tempo interrompendo sua liberdade. Isto é, a lógica do lucro incrustada no pensamento burguês e representada através desse pensamento, já condicionado por essa mesma dinâmica, levará até as últimas conseqüências todas as ações necessárias para derrubar qualquer governo que atrapalhe a liberdade de comércio e a liberdade de se apropriar ao máximo de trabalho alheio não-pago dos trabalhadores. Portanto, só há duas vias: ou o governo rende-se à lógica do lucro e deixa o Estado ser conduzido pela classe dos capitalistas, ou leva até as últimas conseqüências o rompimento definitivo com a burguesia eliminando, assim, com o direito de propriedade e colocando os meios de produção sob o controle dos comitês e conselhos organizados pela classe trabalhadora. Mas, infelizmente, as políticas de Evo Morales, Hugo Chaves, Lula e outros paises da América Latina não foram e não são organizadas dessa maneira. Por isso, terão que continuar gerenciando o Estado de acordo com o interesse dos monopólios que além de continuarem explorando a classe trabalhadora obrigam também que o governo de seus paises não permita aos outros monopólios a mesma liberdade que usufrui os monopólios atrelados a Evo Morales.
Portanto, podemos tirar daí a seguinte conclusão: Ambos os “Socialistas do Século XXI” são oportunistas, traidores e estão completamente a serviço de alguns monopólios que estão em disputa com outros monopólios. Ou seja, o conflito todo se origina pelo fato de que todos esses grupos querem abocanhar o máximo que podem de trabalho alheio não-pago dos trabalhadores, e estes não suportando mais tanta opressão entram em luta contra seus opressores. Em outras palavras, na origem de tudo está a velha luta de classe que alguns não querem ver, ou simplesmente querem escondê-la.
Bibliografia
GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Tradução Galeano de Freitas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
MARX, Karl. O Capital. Tradução Regis Barbosa. São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Os Economistas).
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